As coisas que mais machucam são aquelas que cabem debaixo das unhas, nas frestas dos dentes, nas linhas das mãos. Foi isso que ela pensou logo depois, enquanto lavava a louça com esmero redobrado, uma paciência infinita da qual pendia o equilíbrio num fio tênue sobre um grande poço escuro, passando lentamente, vez, depois de vez, depois de vez, a esponja macia nas bordas da taça, tatuada de batom, manchada do vinho de véspera. A água fria lhe escorria pelos pulsos e ela sangrava sem cor ou temperatura uma dor de torneira aberta. Procurava nas gengivas, sobre a língua, o gosto do antes. Queria de volta seus lábios daquela cor, os lábios que sorriam, os lábios que diziam seu nome sem essa sensação de que soa oco de sentido. Procurava recompor-se entre os talheres sujos, cada vez mais reluzentes, entre pratos cada vez mais limpos, na ordem branca e asséptica da porcelana. Procurava seu rosto no brilho gelado dos metais, sua alma presa dentro das minúsculas bolhas de sabão da espuma branca. No côncavo nas colheres, um espelho lhe mostrava uma outra cada vez menor, de ponta-cabeça. Limpou o chão em frestas e ranhuras, nos cantos onde poderiam ter ficado esquecidas esperanças renitentes, buscando derradeiros vestígios de si mesma, restos daquilo que acabara de ser. Tirou os lençóis tentando não perceber a gravura dos corpos, um cheiro doce de ontem, o peso das certezas em baixo relevo ainda ali por descuido. Estendeu a roupa de cama se esforçando para que nenhuma dobra ficasse, evitando que ali qualquer lâmina fosse esquecida, mesmo que soubesse da crueldade da noite que logo trataria de lhe retalhar por dentro. E assim foi, em parte, por que sempre mais cruéis podem se fazer as noites. Como naquela em que acharia, junto da camisola, uma peça de roupa dele com um perfume que era um abraço e era um golpe, era um soco na cara e um beijo na boca, era um tombo e um ramo de tulipas. Ou naquela, em que lembraria, assim que deitasse a cabeça no travesseiro, do último beijo que não era uma despedida, que ela não sabia que seria. Antes, muito antes que o sono viesse, dobrou as roupas espalhadas pelo quarto e o vestido azul que cabia na outra de si, com o qual ele tinha visto pela última vez a mulher que ela já não mais seria, que era tão mais bonita, tão mais feliz e tão mais ela mesma. Guardou o vestido com uma certa vergonha da sua miudez, da indignidade que viera lhe cobrir de nada. Inventou poeira sobre os móveis, na esperança de limpar dali o olhar que via novidade e surpresa na ordinariedade dos objetos e quis tentar voltar a olhá-los da mesma forma, mas soube que os olhos acometem-se de uma aridez absoluta incapaz de reinventar as coisas assim que desertamos de nós mesmos. Então percorreu a casa em busca de algo mais que ainda pudesse ser arrumado e viu que nada restava e que tudo permanecia fora do lugar.
BY Patricia Antoniete
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